domingo, 29 de maio de 2016

A estratégia da China na Indústria do Futuro

Brasília, 29 de maio de 2016.

A China é o maior mercado mundial e apresenta o mais rápido crescimento da robótica industrial. O país foi responsável por quase 27% dos US$ 32 bilhões do mercado de robótica mundial em 2014, ou seja, 57.096 robôs, segundo dados disponíveis de acordo com a Federação Internacional de Robótica (FIR). As vendas de robôs industriais aumentaram 16% na China em 2015, para 66.000 unidades, em comparação com 11% e 9% de crescimento na América do Norte e Europa, respectivamente, de acordo com a FIR. No Brasil foram comercializados somente 1.266 robôs em 2014, ou 13% a menos que o ano anterior, já demonstrando a perversa crise econômica atual.
Em palestra na Escola Superior de Guerra neste mês de maio, o embaixador chinês no Brasil, Li Jinzhang, declarou que a China pretende ocupar seu espaço e não quer perder novamente a corrida da revolução industrial que hoje se instala ao mundo e é conhecida na Alemanha como Industrie 4.0 e nos Estados Unidos, como Advanced Manufacturing e no Brasil, como Manufatura Avançada. O 13º Plano Quinquenal chinês coloca a inovação em uma posição-chave da estratégia de desenvolvimento nacional e reforça constantemente o investimento na área para que até 2020, a proporção de fundos da sociedade destinados à pesquisa e desenvolvimento ascenda a 2,5% do PIB e a taxa de contribuição do progresso científico e tecnológico para o crescimento econômico chegue a 60%. Com o amadurecimento da economia chinesa seus líderes pretendem com o plano Made in China 2025 aumentar o valor do que é fabricado e por isso a inovação e a modernização da indústria chinesa se fazem tão necessárias.
O grupo chinês Midea, fabricante de aparelhos domésticos da linha branca, fez recentemente uma oferta agressiva de US$ 5 bilhões por 30% das ações da empresa Kuka Roboter, produtora alemã de robôs articulados (antropomórficos). A empresa Kuka é um destacado fabricante de robôs multifuncionais e importante elo para as empresas que pretendem modernizar suas indústrias com as últimas funcionalidades de interface homem-máquina e comunicação máquina a máquina (M2M). Entretanto esse movimento das indústrias chinesas não foi o único, pois em janeiro deste ano a empresa ChemChina pagou €925 milhões pela empresa de máquinas-ferramenta alemã Krauss Mafei em parte por seus avanços na Indústria 4.0 e, a China National Chemical Corp. comprou em fevereiro a empresa suíça de química e de sementes Syngenta AG por US$ 43 bilhões.
O sucesso industrial chinês se deu nas últimas décadas graças a produção de massa de baixo custo da mão de obra. Entretanto a China passa por mudanças demográficas onde trabalhadores jovens não se encontram dispostos a condições de trabalho como antes e a indústria necessita, assim de equipamentos automatizados e robôs. As empresas chinesas são encorajadas graças ao seu plano Made in China 2025, para se modernizar e que prioriza o desenvolvimento da indústria inteligente. Já a Alemanha vê no seu programa Industrie 4.0 a manutenção da sua hegemonia industrial por meio da alta agregação de valor aos seus produtos utilizando a automação avançada e o “custom built” necessária em virtude dos seus altos custos da mão de obra.
A China, apartando as devidas proporções e momentos de sua indústria, opera como o Brasil ainda na indústria 2.0 ou seja, a fase do trabalho intensivo, sem ter passado pela fase de automatização (indústria 3.0). A revolução da indústria 4.0 conecta máquinas, insumos e serviços em plataformas que geram volumes de dados que são analisados e explorados não somente para fazer os equipamentos e produtos mais eficientes, mas para coordenar fábricas inteiras e suas cadeias de valor.
Os workshops que estão sendo realizados no Brasil pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), pelo Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (MICS), pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI) já demonstram a criticidade das habilidades transversais necessárias para se operar as fábricas do futuro e a ausência de especialistas e de empresas integradoras em número suficiente para modernizar a indústria brasileira. A China através da compra das empresas que lideram esse movimento proporciona um movimento que rapidamente poderá fornecer as habilidades de continuar a ser o motor do mundo.

Por fim, cabe a nós brasileiros, discutirmos uma Estratégia Nacional da Manufatura Avançada que possa nos recolocar nos trilhos do desenvolvimento industrial global e nos colocarmos na liderança regional passando por parcerias bilaterais ou multilaterais com outros países, quem sabe com os EUA, Alemanha, Suécia e, mesmo a China. Necessitamos formar as competências em nossos recursos humanos – especialistas, pesquisadores e trabalhadores – que proporcionarão o salto tecnológico de nossa indústria, pois no final a diferença entre nossas cadeias de valor será a competência de nossa gente.